Dois Lados, Duas Vidas

Leia uma degustação de Dois Lados, Duas Vidas!

Copyright © 2015, Karen Alvares

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da autora.

Dois Lados, Duas Vidas

Karen Alvares

Apresentação

Alameda dos Pesadelos é um romance essencialmente sobre amor e perdão. Vívian, a protagonista e narradora da história, vive uma terrível e aterrorizante jornada em busca do entendimento de seus erros e de sua culpa. Gabriel, seu ex-namorado e pai do seu filho, que a abandonou há vários anos, retorna para se vingar por algo que Vívian sequer se lembra de ter feito. Mas quantas vezes nós erramos e nem percebemos? Quantas vezes machucamos os outros sem saber o quanto realmente os estamos ferindo, especialmente as pessoas que mais amamos?

Nos dois contos deste livro temos momentos dessa mesma história, mas em outros pontos de vista. “Do outro lado” mostra uma Vívian diferente da que conhecemos em Alameda dos Pesadelos: uma mulher jovem e cheia de esperança no futuro que, após um evento trágico, é moldada pelo sofrimento até se transformar na mulher triste e amargurada do livro. Ele também nos apresenta a um personagem essencial em Alameda dos Pesadelos, mas que não teve tanta participação na história.

Já o outro conto, “Deste lado”, mostra um ponto de vista completamente diverso: o de Gabriel, antagonista do livro. A partir dos seus últimos momentos em vida, o conto revela como o desespero e o rancor que Gabriel sentia o levaram a se associar a uma criatura maligna e cruel que também aparece em Alameda dos Pesadelos. O conto tem uma visão mais crua e sombria dos fatos e prova que em uma história há sempre dois lados: e cada um tem sua própria razão.

Os contos vêm complementar um livro cujo intuito sempre foi mostrar, da maneira mais clara e humana possível, como todos os lados de uma história têm algo a dizer, como todos cometem erros e merecem compreensão. Mas também que, ao mesmo tempo, é sempre possível se redimir desses erros, contato que se tenha o desejo verdadeiro de ser perdoado… e de amar.

Karen Alvares, 2015

Do outro lado

“Nós temos toda uma eternidade para nos vermos de novo.”

(Alameda dos Pesadelos, 2014)

— Para onde está me levando?

Você me olhou com um sorriso misterioso. Eu adorava quando você fazia aquela expressão: era diferente, tinha algo de ousado, de rebelde. E você era sempre tão centrado o tempo inteiro. Tão certinho. Tão educado com meus pais e tão preocupado comigo. Era sempre surpreendente quando você assumia aquele brilho de aventura nos olhos. Era como mergulhar no desconhecido sem medo. Eu sempre confiava em você. Ao seu lado, estava segura. Sempre.

— Para as bordas do céu – você respondeu, rindo, de olho no trânsito da rodovia.

— Biquíni Cavadão? Eu não sabia que você gostava deles.

— Claro que eu gosto. De algumas músicas só, mas gosto.

Deixei uma risada subir pela garganta e flutuar no carro. O sol batia quente no para-brisa, esquentando demais o Chevette, mas nós nem nos importávamos. Rir, suar, passar calor, tudo fazia parte de uma aventura maior. Era um dia intenso de verão cheio de vida e promessas.

— É engraçado, de onde será que eles tiram esses nomes? Quer dizer… “Biquíni Cavadão”?

Fiz aquela minha cara de deboche exagerado que sempre o fazia rir.

— Hum. Hum. Hum. Eu tenho algumas ideias – você tinha novamente aquele brilho aventureiro no olhar. – Você, de biquíni pra mim… pequenininho. Que tal hoje? É um bom dia, não acha? E falando nisso você ainda não me mostrou o que tem debaixo dessa camiseta.

Gargalhei. Havia sim um biquíni, mas eu tinha vergonha de biquínis muito pequenos. Sabia muito bem que o nosso destino era a praia, só não sabia qual. Eu conhecia há anos a rodovia dos Imigrantes, sempre passava por ela com meus pais, então nisso você não conseguiu me enganar nem por um segundo. Eu só não sabia para qual cidade estávamos indo. Você não queria me dizer. Ficava me provocando com isso. Disse para minha mãe que estava me sequestrando pela manhã e ela ficou apavorada. Papai falou para ela deixar de bobagem: você, afinal, era você.

Olhei para a estrada, para que você não visse que eu tinha ficado vermelha. Detestava ficar vermelha. Não acontecia muito, mas acontecia com você. E aí você sempre tirava sarro da minha cara. Dizia que eu parecia uma paquita da Xuxa. Onde já se viu? Nós já estamos em 1995. Esse programa nem existe mais. É apenas uma lembrança da nossa infância.

Engraçado como a nossa vida se transforma em lembranças depois de um tempo, você não acha?

No final, só restam lembranças. O passado que não existe mais, que já foi.

Os vidros do Chevette estavam fechados, por causa da velocidade. O vento fazia um barulhão nas janelas. Olhei para você, queria surpreendê-lo, deixá-lo confuso, e então você me olhou de volta, sem saber o que esperar. Você dizia que eu era imprevisível. Você botava meus pés no chão e eu fazia você flutuar. Abri o vidro e meti a cabeça para fora, que nem cachorro em dia de passeio.

— Maluca! – você gritou, rindo. – Sai daí, sua doida! Ah, se teus pais te veem assim o nosso noivado vai pro brejo!

— Tá brincando? – eu ri, sentindo o vento forte no rosto. Era libertador. Poucas vezes senti tamanha liberdade na vida. Simplesmente não consigo esquecer aquela sensação. – É capaz de eles me deserdarem como filha antes de renegarem você! Queridinho.

Fechei o vidro e nós dois rimos como adolescentes. A gente era quase isso, na verdade. Estávamos naquela passagem nebulosa, aquele momento indefinível que nos transforma em adultos. Quando não se é jovem nem velho. A minha passagem foi difícil. Talvez eu tenha ficado presa ali, entre aqueles dois mundos. Vivendo no passado que é você.

Você não chegou a ficar vermelho, mas estava sem graça. Eu ria muito quando você ficava vermelho, principalmente quando minha mãe o chamava de queridinho. E você ficava mesmo quando ela fazia isso. Parecia o pimentão da propaganda da tevê.

— Doce, doce, a vida é um doce, a vida é mel…

— Bah! – você jogou um pacote vazio de biscoito de polvilho no meu colo. – Só você é paquita!

E nós continuamos viajando. A estrada se estendia como um tapete no horizonte. O céu estava claro, azul, com nuvens branquinhas. Apontei para uma e disse que tinha a forma de um dragão. Você riu e disse que parecia um avião. Um avião em formato de dragão.

Você dizia coisas sem sentido e eu achava graça…

Eu nunca mais vou achar graça em nada. Prometo.

Continua…

Baixe já o e-book na Amazon.com.br por apenas R$ 6,90 ou grátis via Kindle Unlimited.

capa_doislados_nova

Anúncios

2 Respostas

  1. Pingback: Divulgação: Dois Lados, Duas Vidas – Karen AlvaresLiteratura de Cabeça | Literatura de Cabeça

  2. Pingback: Seleção de blogs/canais parceiros | Eu, Papel e Palavras

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s